SERRA FLUMINENSE: O CAMINHO DAS ÁGUAS DA NASCENTE ATÉ O MAR
- Janaína Botelho
- 19 de mar. de 2021
- 29 min de leitura
Atualizado: 22 de mar. de 2021
Para onde vão as águas de Nova Friburgo? Qual é o caminho das águas desde o Caledônia até o encontro com o mar? Principal rio de Nova Friburgo, o Rio Grande nasce no alto do Caledônia onde podemos visualizar todo o vale de São Lourenço. Este maciço de granito eleva-se a 2.257 metros acima do nível do mar, sendo o segundo ponto mais alto da Serra do Mar. De lá também pode-se avistar o vale do Rio Bengalas que é um importante afluente do Rio Grande. O Caledônia é o divisor de águas de duas bacias hidrográficas. De um lado as águas correm em direção à Baia da Guanabara passando pelo município de Cachoeiras de Macacu. Do outro, as águas correm em direção ao Rio Paraíba do Sul sendo denominada de Bacia Hidrográfica Rio Dois Rios. Nova Friburgo tem uma particularidade. Uma parte de seu território está compreendida na Bacia Hidrográfica do Rio Dois Rios e a outra parte na Bacia Hidrográfica do Rio Macaé e das Ostras. O objetivo deste artigo é somente apresentar a primeira bacia e mostrar o caminho de suas águas. O Comitê de Bacia Hidrográfica Rio Dois Rios abrange 12 municípios como Nova Friburgo, Bom Jardim, Duas Barras, Trajano de Moraes, Cordeiro, Macuco, Cantagalo, Carmo, Itaocara, São Sebastião do Alto, Santa Maria Madalena e São Fidélis. O Rio Dois Rios é formado pelo encontro do Rio Grande que nasce em Nova Friburgo com o Rio Negro, que nasce no município de Duas Barras. A partir desta união o rio passa a ser chamado de Rio Dois Rios até se encontrar com o Rio Paraíba do Sul. No Caledônia onde nasce a presença de florestas na cabeceira da bacia do Rio Grande resulta em uma água límpida e de qualidade. As florestas proporcionam a retenção da água da chuva que se infiltram no solo e são lentamente liberadas. A região do terceiro distrito de Nova Friburgo beneficiada pelo Rio Grande é um importante centro produtor de verduras e hortaliças abastecendo a região metropolitana do Rio de Janeiro por meio da agricultura familiar. O Rio Grande tem as suas águas captadas na localidade de Rio Grande de Cima para o abastecimento da cidade. A população urbana de Nova Friburgo está na bacia hidrográfica de um afluente do Rio Grande, o Rio Bengalas. Este rio é formado pelo encontro das águas dos rios Cônego e Santo Antônio, que também nascem no maciço do Caledônia e se encontram no centro da cidade, no Paissandú, mais precisamente em frente a igreja Luterana. Após sair da área urbana de Nova Friburgo as águas do Rio Bengalas vão em direção ao município de Bom Jardim. Exatamente no limite destes dois municípios(no pedágio) o Bengalas se encontra com o Rio Grande. Já o Rio Negro que tem as suas águas nascidas nas serras de Duas Barras segue em direção ao município de Cantagalo. Os rios Negro e Grande se encontram no município de São Sebastião do Alto na localidade de Guarani. A partir deste encontro o rio passa a se chamar Rio Dois Rios que segue em direção a localidade de Cambiasca e depois Colônia, em São Fidélis. Neste ponto em que as águas do Rio Dois Rios se encontram com as águas do Rio Paraíba do Sul marca o limite da Região Hidrográfica do Rio Dois Rios, que passa a ser gerido por outro comitê. Ao longo de todo o caminho percorrido as águas que passaram pelos 12 municípios mencionados trazem as marcas impressas pela ação do Homem, a exemplo de esgoto não tratado, dejetos industriais e agrotóxicos usados na lavoura. Ao sair de São Fidélis as águas do Rio Paraíba do Sul deixam definitivamente o relevo de serra para entrar na planície do Norte Fluminense. Campos dos Goytacazes é a primeira cidade na baixada que as águas do Paraíba do Sul vão encontrar o seu caminho. Após passar por este município as águas do Paraíba do Sul seguem em direção ao município de São João da Barra atingindo o final de sua longa jornada. Em São João da Barra na localidade denominada Atafona, o Rio Paraíba do Sul se encontra finalmente com as águas do mar. Infelizmente em toda a região hidrográfica do Rio Dois Rios os morros estão desprovidos de florestas e com gravíssimos sinais de erosão. Este desmatamento se deve ao plantio do café no século 19. Com o declínio do café, a pecuária leiteira e de corte ocupou espaço na economia regional. Este “mar de morros” desflorestados sofrem ação direta das águas das chuvas que provocam a perda de solo. Através do escoamento superficial da água da chuva, parte do solo é carreado junto com as águas sendo levado aos vales junto ao leito dos rios acarretando o seu assoreamento. Este texto foi extraído do roteiro de André Bohrer para o documentário “Caminho da Águas. Do Caledônia a Atafona” em que eu assino a direção. Este documentário está disponível no link abaixo e convido a assistirem e desfrutarem da belíssima paisagem serrana fluminense que percorrem as águas de nossos rios. Segue o texto na íntegra do roteiro do documentário.
SERRA FLUMINENSE: O CAMINHO DAS ÁGUAS DA NASCENTE ATÉ O MAR
O Sol é a fonte de energia que proporciona vida em todo o Planeta Terra, Dele é que vem toda a energia que flui nos ecossistemas. A energia do Sol aquece a atmosfera e as águas dos oceanos. As águas evaporam e ficam em estado gasoso na atmosfera. Com a atmosfera aquecida pelo sol surgem os ventos criando a movimentação das massas de ar. Com o deslocamento dessas massas de ar, as águas presentes nela também se deslocam. Ao chegarem no continente, no alto das serras, essas massas de ar carregadas de água, se resfriam. E a água que estava em estado gasoso passa para o estado líquido. É a Chuva! A Chuva é um fenômeno natural que proporciona o surgimento e a manutenção dos nossos rios. De toda água que cai no continente sob a forma de chuva: Parte dela evapora e volta novamente para a atmosfera. Parte escoa pela superfície e uma parte fica retida na vegetação ou se infiltra no solo. No continente, a água é reservada no solo, que por sua vez, abastece os rios e nascentes. As nascentes expõem na superfície a água que está armazenada no solo. Essa água começa a escorrer sobre o solo. E se junta com as águas de outras nascentes. Formam-se pequenos cursos d’água, ou seja os córregos. Os córregos se juntam com outros e formam os rios. Os rios se juntam com outros rios, e formam rios cada vez maiores até que as águas desses rios se encontram com as águas do mar.
Sabendo que as águas caem nas serras e escorrem em direção ao mar, você que é de Nova Friburgo e cidades da região sabe por onde passam as águas dos rios de sua cidade? Este texto tem exatamente o propósito de contar essa história. Do alto da serra até o encontro do Rio com o Mar. Qual é o caminho que as águas da Bacia Hidrográfica Rio Dois Rios realizam até se encontrar com o mar?
O caminho das águas de nossa região inicia-se no altíssimo do Caledônia. Maciço de granito no município de Nova Friburgo que eleva-se a 2.257 metros acima do nível do mar, é o segundo ponto mais alto da Serra do Mar. Apenas o Pico Maior dos Três Picos em Salinas, igualmente em Nova Friburgo, é mais alto que o Caledônia. Nesta montanha existe um ecossistema especial, com fauna e flora rara adaptada ao peculiar clima existente no alto dessas montanhas. Esse ecossistema é chamado de campo de altitude. O Caledônia é o divisor de águas de duas bacias hidrográficas. Uma, onde as águas correm em direção a Baia da Guanabara, através do município de Cachoeiras de Macacu. Outra, onde as águas correm para dentro do continente, em direção ao Rio Paraíba do Sul. Vamos traçar o caminho percorrido pelas águas que correm em direção ao interior do continente, ou seja, contaremos a história das águas da Bacia Hidrográfica denominada Bacia do Rio Dois Rios.
O estado do Rio de Janeiro está dividido em 9 regiões. Dentre elas existe a Região Hidrográfica VII denominada Rio Dois Rios onde estão inseridos 12 municípios fluminenses. O Rio Grande que nasce em Nova Friburgo, juntamente com o Rio Negro que nasce em Duas Barras são os principais rios formadores da região hidrográfica Rio Dois Rios. O Rio Dois Rios é formado pelo encontro do Rio Grande com o Rio Negro. A partir dessa união o rio passa a ser chamado de Rio Dois Rios até se encontrar com o Rio Paraíba do Sul. Portanto, para contar a história das águas do Rio Dois Rios temos que contar a história das águas do Rio Grande e do Rio Negro. Para contarmos a história por onde passam as águas do Rio Grande iniciamos do alto do Caledônia, onde podemos visualizar todo o vale de São Lourenço, região onde localiza-se a nascente do Rio Grande. De lá também é possível ver o vale do rio Bengalas, que é um importante afluente do Rio Grande. O Vale de São Lourenço, no município de Nova Friburgo, é uma região de uma beleza extraordinária. A Bacia possui suas cabeceiras protegidas por exuberantes florestas “rasgadas” por maciços de granito característicos dessa região montanhosa. E é nesta região espetacular que nascem as águas do Rio Grande! Toda esta região de cabeceira está protegida pela Unidade de Proteção Integral do Parque Estadual dos Três Picos, que é gerenciada pelo Instituto Estadual do Ambiente - INEA.
O Vale de São Lourenço tem como moldura, de um lado o Caledônia, e do outro os Três Picos formando um cenário único e magnífico. A presença abundante de florestas na cabeceira dessa bacia proporciona a produção de uma água límpida de qualidade extraordinária. As florestas dessas serras são realmente fábricas de água, pois proporcionam a retenção da água da chuva, que infiltram no solo e depois são lentamente liberadas. Assim que as águas começam a sair desta área de floresta passam a ser utilizadas pelo homem nas suas necessidades básicas e principalmente na produção agrícola local. É a região mais importante na produção de verduras do estado do Rio de Janeiro, com expressiva produção agrícola familiar. É responsável por abastecer as cidades próximas e a região metropolitana do Rio de Janeiro. Portanto, após saírem das matas, as águas do rio Grande passam a ser o recurso natural fundamental nesta atividade econômica, gerando emprego, renda, riqueza e cultura. É através dela que se produz alimento para o homem.
A atividade agrícola apresenta tamanha importância que existe na região uma unidade do CEASA, localizada em Conquista. Essa central comercializa no atacado a produção agrícola de Nova Friburgo, Teresópolis, Sumidouro e de alguns municípios do centro-norte fluminense. Apesar da região possuir o predomínio da produção agrícola, não são apenas essas culturas que tem a dependência da água nas suas atividades. Outra atividade econômica que recentemente vem crescendo muito e também está relacionada com a água e com o cenário exuberante da região, é o turismo. Existe em diversas modalidades como o ecoturismo, de aventura, o turismo rural, o montanhismo, o pedagógico, entre outros. O potencial desta atividade na região é enorme e com ótimas perspectivas de crescimento.
Com o avanço tecnológico da agricultura nas últimas décadas, a utilização da água passou a ser realizada de forma mais intensa. Aumentou-se e muito o acesso a bombas e a tubulações para a irrigação. Ou seja, a agricultura passou a utilizar mais água. Além de consumir mais água, a atividade também passou a comprometer a qualidade da água com a utilização intensa dos agrotóxicos e fertilizantes químicos. O aumento do uso da água está relacionado com o aumento da utilização da irrigação por aspersão nas lavouras. Esta modalidade de irrigação promove muita perda de água pela evaporação e igualmente a erosão do solo em determinadas situações. Com o uso cada vez mais intensivo da água na região, os córregos vão diminuindo de volume e os poços de água subterrânea ficam cada vez mais fundos. Outro grave problema na região é a utilização intensa de agroquímicos, que são os agrotóxicos e fertilizantes artificiais.
Os agrotóxicos como inseticidas e herbicidas por serem venenos promovem danos ao ecossistema e a saúde do ambiente e consequentemente também à saúde do homem do campo e da cidade. Além disso, incorporam essas substâncias nocivas na água que mais cedo ou mais tarde irão estar nos rios. Já os fertilizantes químicos “enriquecem artificialmente” o solo com muitos nutrientes. As águas das chuvas carreiam esses nutrientes para cursos d’água até que se acumulam em ecossistemas aquáticos de lagos provocando o fenômeno de eutrofização, que degrada a qualidade da água alterando completamente a vida daquele ecossistema. Pesquisadores e agrônomos apontam que o uso indiscriminado desses fertilizantes promove a salinização do solo, que compromete definitivamente o seu uso na agricultura. É importante frisar que o homem do campo está na verdade “aprisionado” por um sistema comercial que envolve a tríade: sementes x fertilizantes x agrotóxicos. E ele não tem a menor condição de fugir dessa “prisão” sem a participação mais consciente da população urbana, que é a grande consumidora do alimento produzido nestas condições. É preciso despertar nas mentes e nos corações urbanos, a necessidade de exigir saúde em todos os seus aspectos. Principalmente, nos relacionados com a qualidade do alimento que ele ingere, da qualidade do ambiente que ele vive, da qualidade da água e por consequência da qualidade de vida que ele tem. O Rio Grande, após drenar toda essa região produtora de hortaliças, tem suas águas captadas para outro uso fundamental na nossa sociedade. O abastecimento urbano.
As águas do Rio Grande são captadas na localidade de Rio Grande de Cima e tratadas na maior estação de tratamento de água de Nova Friburgo. E de lá, por gravidade, as águas são distribuídas para cerca de 60% da população urbana de Nova Friburgo. Nova Friburgo tem como marco de sua fundação a imigração suíça, chegando à região entre o final de 1819 e início de 1820. É o município com a maior população desta região Hidrográfica com uma população de 185.381 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 933.414km², resultando em uma Densidade demográfica de 195 hab/km². Uma parte de seu território está na Bacia Hidrográfica do Rio Dois Rios e a outra parte na Bacia Hidrográfica do Rio Macaé e das Ostras. O município possui uma atividade econômica vigorosa onde destacam-se: o setor do comércio e serviços; o setor industrial representado principalmente pelas indústrias têxtil e metalúrgica; e o setor agropecuário representado principalmente pela produção de verduras e legumes. Possui grande potencial para o turismo e o seu IDH-M apresenta-se em nível alto com valor de 0,745, o maior desta região hidrográfica. A maior parte da população urbana de Nova Friburgo está na bacia hidrográfica de um importante afluente do Rio Grande: O Rio Bengalas.
O Rio Bengalas é formado pelo encontro das águas dos rios Cônego e Santo Antônio que nascem no maciço do Caledônia e se encontram no centro da cidade, no Paissandu(Marcílio Dias). O Rio Bengalas possui uma grande importância por ser em sua bacia hidrográfica que se encontra a maior área urbana da bacia do Rio Dois Rios. As águas deste rio ao passar por Nova Friburgo recebem uma carga orgânica decorrente do despejo de esgoto. É bom destacar que o despejo de esgoto era bem mais intenso até o ano de 2010, época que a totalidade do esgoto produzido era lançado diretamente no rio. Mas, após grandes investimentos para implantação de um sistema de coleta e tratamento de esgoto realizado na última década, o cenário melhorou muito. Atualmente Nova Friburgo consegue tratar 82,8% do esgoto produzido em sua área urbana. Mas ainda há espaço para avançar mais atingindo a totalidade de tratamento de esgoto produzido na área urbana. É comum em toda a cidade verificar o despejo de esgoto diretamente no rio, fora do sistema da captação. É possível avançar também no saneamento rural. Atualmente quase não há ações nesse sentido.
Outro aspecto presente na área urbana do município de Nova Friburgo, que não é exclusividade desta cidade, muito pelo contrário, está presente em todas as cidades do Brasil é o completo desrespeito em relação aos limites de área de uso dos rios. Há um desrespeito total nas áreas de preservação permanentes, as APPs. Esse desrespeito fica evidente com a constatação de construções quase dentro do leito do rio. É necessário que a sociedade entenda que os rios não são simples calhas para a passagem de água. Os rios têm como áreas de seus domínios, a área do leito e as áreas de inundação, que também fazem parte do rio. O rio é na verdade um complexo sistema biogeoquímico e a falta de respeito ocupando áreas de inundação é uma das principais causas das enchentes que assolam as áreas urbanas das cidades brasileiras. Além é claro de provocar profundas alterações nas relações biológicas, nas relações hidrológicas e nas relações químicas presentes nesse ecossistema aquático. Igualmente podemos constatar outro problema urbano, comum em praticamente todos os municípios do Brasil. A impermeabilização do solo pelo crescimento da malha urbana! Essa impermeabilização praticamente impede a infiltração da água no solo durante a chuva. Em compensação a água que não é mais infiltrada pelo solo aumenta o volume que escoa pela superfície. Com as chuvas intensas, o volume de água que chega no leito dos rios, que drenam essas regiões urbanas, não suportam a demanda recebida de água e extravasam, provocando assim as enchentes, Esse processo, onde não há infiltração de água de chuva no solo, também é o responsável pela diminuição do volume de águas dos rios no período de seca, pois não ocorre a recarga da água no solo para abastecimento dos rios nos períodos de estiagem. E neste ambiente completamente urbanizado é que as águas do Rio “Bengalas sereno deslizam”, conforme um trecho do hino de Nova Friburgo.
Após sair da área urbana de Nova Friburgo as águas do Rio Bengalas vão em direção ao município de Bom Jardim. E no limite destes municípios ele se encontra com o Rio Grande. As águas do Rio Grande passam por Bom Jardim que é uma flor de cidade! Bom Jardim é um município que possui uma população de 26.566 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 384.639km² resultando em uma densidade demográfica de quase 66hab/km². Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Bom Jardim possui um IDH-M de nível médio com valor de 0,660. Suas principais atividades econômicas são a indústria de plástico e o setor agropecuário com destaque para a produção de café que junto com o município de Duas Barras são os maiores produtores do estado do Rio de Janeiro. No município de Bom Jardim podemos destacar como os principais usos da água as atividades de saneamento básico, lazer, irrigação, indústria e geração de energia.
Depois de passar por quase toda a área urbana de Bom Jardim, as águas do Rio Grande sofrem uma importante obstrução humana. É a Pequena Central Hidroelétrica (PCH) – Santo Antônio. É uma dentre 04 instaladas no leito do Rio Grande transformando o rio em uma escada onde cada PCH são os degraus. Além destas, constam no estudo de inventário hidroelétrico da bacia do Rio Grande outras 08 PCHs. Estas PCHs são responsáveis pela geração de energia elétrica que utilizamos em nossas casas, nas fábricas, nos hospitais, prédios públicos, entre outros. Enfim, a sociedade em geral demanda energia elétrica. E essas PCHs são uma das formas de geração de eletricidade para atender as demandas de nossas cidades. No Brasil a maior parte da matriz energética é hidroelétrica, ou seja, gerada pela água dos rios e as águas do Rio Grande também são utilizadas para isso. A geração de energia além de prover as bases logísticas para o desenvolvimento econômico geram também impostos. Se por um lado estas PCHs produzem eletricidade e ao usufruirmos dela obtemos conforto, bem-estar e capacidade produtiva, entre outros benefícios, por outro lado, as PCHs são intervenções humanas que provocam grande impacto ambiental. Ao construir uma barragem de concreto onde as águas do rio ficam represadas para poder gerar energia, modificações importantes acontecem na dinâmica da água do rio.
A primeira e mais evidente é a alteração de uma água de ambiente Lótico, ou seja, águas de corredeiras, transformadas para um ambiente Lêntico, isto é, com águas mais calmas e paradas. Esta alteração na dinâmica da água tem um desencadeamento em toda a dinâmica da vida neste rio. Isto ocorre porque organismos que antes viviam no ambiente de corredeira não conseguem mais viver no novo ambiente de águas paradas. Por outro lado, organismos que vivem em ambiente de água parada começam a surgir alterando assim as relações ecológicas estabelecidas naquele rio. Outro aspecto envolve a dinâmica de transporte de nutrientes e sedimentos através da água, que também fica drasticamente alterada. Se antes eram rios com corredeiras que carreavam os nutrientes e sedimentos presentes na água, hoje são grandes lagos que acabam promovendo um armazenamento destes nutrientes e sedimentos nos reservatórios da barragem. Consequentemente, esses nutrientes e sedimentos não cumprem sua função ecológica após a barragem. Causam impacto no ecossistema tanto a jusante da PCH pela ausência da chegada dos sedimentos quanto a montante, com o acúmulo dos mesmos.
Neste cenário, onde há retenção de nutrientes e sedimentos nos reservatórios, em determinadas condições climáticas podem ocorrer uma explosão de macrófitas, ou seja, plantas aquáticas. E o enredo desta história é simples. Antes de chegar no reservatório, as águas passam por toda a região agrícola de Nova Friburgo, onde grandes quantidades de fertilizantes são utilizadas. Lembremos que antes de chegar no reservatório, as águas passam pelas as áreas urbanas de Nova Friburgo e de Bom Jardim onde grande quantidade de esgoto é despejada. E o esgoto é também um poderoso fertilizante pois tem muitos nutrientes. Todo esse nutriente chegando no lago das PCHs, que antes era um ambiente de corredeira e transportava o nutriente rio abaixo, agora é um ambiente de represamento, que retém esse nutriente. Isto cria um ambiente incrivelmente favorável para o crescimento das macrófitas, as plantas aquáticas, que tem uma explosão populacional ao ponto de ocupar completamente a superfície do lago da barragem. Ao ocupar toda a superfície do lago, essas plantas aquáticas impedem a penetração da luz do sol nas águas. Consequentemente, os organismos presentes na água, responsáveis pela fotossíntese, que são os fitoplânctons, não a realizam. A fotossíntese produz oxigênio que fica disponível na água. Como não há fotossíntese, o oxigênio diminui drasticamente nessas águas e os animais que dependem dele para respirar tem sua sobrevivência comprometida. Além disso, a própria macrófita quando morre e começa a se decompor passa a ser outro fator importante na redução do oxigênio dissolvido na água, intensificando o comprometimento da qualidade desta água. Outro problema relacionado com a proliferação descontrolada das macrófitas ocorre na própria operação de geração de energia, pois aumenta o risco da passagem desses vegetais pelas turbinas. Podendo gerar graves problemas nos equipamentos.
Após passar pelo município de Bom Jardim, as águas do Rio Grande formam um marco geográfico que estabelece os limites políticos dos territórios dos municípios de Cordeiro, Macuco, Trajano de Moraes, Santa Maria Madalena, São Sebastião do Alto e São Fidélis. Trajano de Moraes é um município que possui uma população de 10.352 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 589.812km² resultando em uma densidade demográfica de 17hab/km². O município tem seus limites parcialmente na região hidrográfica do Rio Dois Rios e outra parte na Região hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul. O fato curioso é que o limite entre essas duas regiões hidrográficas ocorre exatamente no meio de sua área urbana. Trajano de Moraes possui um IDH-M de nível médio com valor de 0,667. Sua principal atividade econômica é a agropecuária.
Santa Maria Madalena é um município que possui uma população de 10.172 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 814.763km² resultando em uma densidade demográfica de 12hab/km². O município tem seus limites parcialmente na região hidrográfica do Rio Dois Rios e outra parte na Região hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul. Madalena, como é chamada na região, possui um IDH-M de nível médio com valor de 0,667. -Sua principal atividade econômica é a agropecuária. Mas destaca-se o potencial para o turismo, grande parte devido a presença da sede do Parque Estadual do Desengano que fica em seu território. Em Santa Maria Madalena, assim como em outros municípios da região Hidrográfica, é possível verificar outro importante uso da água que é o lazer, pois são diversos os pontos de balneários nos rios que refrescam os adultos e alegram a criançada.
O Rio Grande é o marco geográfico que delimita os municípios de Santa Maria Madalena, na margem direita e São Sebastião do Alto, na margem esquerda. Em sua margem direita deságuam as águas do rio Macapá. A partir deste ponto na margem direita passa a ser território do município de São Fidélis, enquanto que na margem esquerda continua o município de São Sebastião do Alto. Os rios continuam correndo e marcando os limites territoriais desses dois municípios até que as águas do Rio Grande se encontram com as águas do seu “Rio Irmão”: O Rio Negro!!O Rio Negro é um importante rio da região hidrográfica que tem suas águas nascidas nas serras do município de Duas Barras.
Duas Barras é um município que possui uma população de 11.619 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 375.126km² resultando em uma densidade demográfica de 29hab/km². Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Possui um IDH-M de nível médio com valor de 0,659. Sua principal atividade econômica está no setor agropecuário com destaque para a produção de leite e de café que junto de Bom Jardim são os maiores produtores do estado do Rio de Janeiro.
Após o afloramento de suas águas nas florestas existentes no alto das serras que dividem o município de Duas Barras com Nova Friburgo e Sumidouro, as águas do Rio Negro passam por regiões de produção agropecuária, onde apesar de ainda possuírem florestas já apresentam paisagem predominante de pasto. Com isso, o solo fica exposto a erosão que resulta em alterações na qualidade da água drenada na microbacia. O processo de erosão do solo está presente em todos os municípios da região hidrográfica. Neste trecho fica evidente a alteração na qualidade da água que pode ser verificada a olho nu, através da perda de transparência ou aumento da turbidez, devido principalmente à presença de sedimentos originados pela erosão do solo. Assim que essas águas entram nas áreas urbanas a qualidade delas ficam mais comprometidas. Os rios nesses trechos urbanos servem como uma latrina a céu aberto, onde todo o esgoto doméstico é despejado diretamente no rio. Esse impacto fica evidente com a alteração da cor da água. Ela fica mais cinzenta, além de aumento da turbidez e a presença de cheiro fétido.
Após passar pela área urbana de Duas Barras as águas do rio Negro seguem em direção ao município de Cantagalo. Cantagalo é o município mais antigo da região, e possui uma população de 19.697 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 749.279km² resultando em uma densidade demográfica de 26hab/km². Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Possui um IDH-M de nível alto com valor de 0,709. Suas principais atividades econômicas estão nos setores de comércio e serviços, setor da agropecuária, com destaque para a pecuária de corte e de leite e para a indústria de cimento. Em Cantagalo o cenário não muda com relação ao despejo de efluentes direto nos rios urbanos. O esgoto doméstico é lançado diretamente nos corpos hídricos. Apesar de passar em seu território, o rio Negro não é o principal manancial de água utilizado para o abastecimento urbano. O abastecimento de água no município de Cantagalo vem de um afluente do rio Negro, o Rio Macuco. Este afluente do Rio Negro é o responsável pelo abastecimento da área urbana de Cantagalo, Cordeiro, Macuco e Monnerat, distrito de Duas Barras. Os municípios de Cordeiro, Cantagalo e Macuco formam a região média e central da região hidrográfica do Rio Dois Rios.
Cordeiro tem uma população de 21.250 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 116.349km² resultando em uma densidade demográfica de 175hab/km². Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Possui um IDH-M de nível alto com valor de 0,729. Suas principais atividades econômicas estão nos setores de comércio e serviços, setor da agropecuária, destaque para a pecuária leiteira e de corte, e para a indústria têxtil.
Macuco possui uma população de 5.434 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 77.719km² resultando em uma densidade demográfica de 67hab/km². É o município com a menor extensão na bacia, porém encontra-se em disputa territorial com o município de Cantagalo. Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Macuco possui um IDH-M de nível alto com valor de 0,703. Sua principal atividade econômica está na pecuária de corte e leiteira, com destaque para a maior cooperativa de leite da região, que leva o nome da cidade, a Cooperativa Macuco. Como pano de fundo da disputa judicial sobre os limites territoriais entre os municípios de Cantagalo e Macuco estão três fábricas de cimento. Na realidade, os impostos que são o verdadeiro motivo da disputa. Isto, obviamente, se tiver água! A água nestas fábricas é imprescindível na produção pois é utilizada para refrigerar os gases e equipamentos. Nessa região, as águas são utilizadas no abastecimento urbano, na agropecuária, na indústria de cimento e alimentícia com a Cooperativa de Macuco.
Nesta Região Hidrográfica do Rio Dois Rios, onde estão os municípios de Cordeiro, Cantagalo, Macuco e São Sebastião do Alto é muito comum encontrar grandes vales completamente desprovidos de floresta e com graves sinais de erosão. Historicamente essa alteração da paisagem aconteceu com a substituição das florestas pelo plantio do café no século 19. Essa região foi uma importante produtora de café, principalmente no segundo reinado no período do Império. Com o declínio do Café, a pecuária leiteira e de corte ocupou o espaço na economia regional. Como resultado de quase cinco décadas de cultivo intensivo do café e transformação da paisagem, verifica-se que quanto mais se avança rio abaixo, menor é a presença de cobertura florestal. E com os vales completamente sem cobertura florestal, o impacto das chuvas se faz presente como cicatrizes profundas. O declínio da produção de café é consequência direta da degradação do solo na região.
Enquanto o solo na região mantinha sua fertilidade, a cultura do café ostentava sua riqueza. Com a degradação do solo, a cultura igualmente declinou. O declínio na realidade é de todo o ambiente que passa a ficar mais pobre, inclusive pobre de água. Um bom exemplo disso é a entrevista de um antigo proprietário de uma fazenda de café do século 19. Esses vales desprotegidos sofrem ação direta das águas das chuvas que provocam a perda de solo. Através do escoamento superficial da água da chuva, parte do solo é carreado junto com as águas da chuva e vão inevitavelmente serem levadas para o leito dos rios no fundo dos vales. E o assoreamento é inevitável!
As terras entre os rios Negro e Grande formam o território do município de São Sebastião do Alto. Por ter seus limites territoriais demarcados pelo leito destes dois rios é chamado também de “a Mesopotâmia Fluminense” em alusão ao rio Tigre e Eufrates que demarcam a região da mesopotâmia no Oriente Médio. São Sebastião do Alto possui uma população de 9.094 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 397.898km² resultando em uma densidade demográfica de 17hab/km². Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Possui um IDH-M de nível médio com valor de 0,646. Sua principal atividade econômica está no setor agropecuário, com destaque para a pecuária leiteira e de corte. Neste município são comuns áreas apresentando sinais de desertificação.
Os dois rios “irmãos” demarcam o limite de São Sebastião do Alto até que se encontram na localidade de Guarani. Neste ponto, existe uma tríplice fronteira entre São Sebastião do Alto, São Fidélis e Itaocara. A partir deste encontro o rio passa a se chamar Rio Dois Rios. O encontro dos rios Negro e Grande é onde há a formação do Rio Dois Rios que dá o nome a toda essa região Hidrográfica. Esta região é um importante local para a população de peixes na bacia hidrográfica. Abaixo desse encontro não existe nenhuma barreira física ao deslocamento dos peixes na época da piracema. Porém mesmo não existindo a barreira física a jusante do encontro, as barreiras acima provocam impactos na população de peixes. As barragens regulam o nível do rio e retiram os estímulos que indicam para os peixes o direcionamento do local da desova. Esse impacto foi descrito empiricamente por testemunhos da população local. A partir da sua formação o Rio Dois Rios segue em direção a localidade de Cambiasca e depois Colônia, ambas pertencentes ao município de São Fidélis.
Assim como nas regiões descritas anteriormente, essas localidades também têm grande atividade agrícola e pecuária. A evidência mais clara disso é a presença de uma unidade do CEASA em Ponto de Pergunta, município de Itaocara. A segunda unidade presente nesta região hidrográfica. O Ceasa foi inaugurado em 1982 e possui infraestrutura para atender as cidades de Cardoso Moreira, São José de Ubá, Aperibé, São Fidélis, Italva, São Sebastião do Alto, Santo Antônio de Pádua, Cambuci, Itaperuna, Miracema e Natividade. Os Principais produtos comercializados são: tomate, abobrinha, batata doce, manga, berinjela, jiló, maracujá, maxixe, pimentão, quiabo, vagem, entre outros produtos. O vigor da produção agrícola local fica evidente nos dias de funcionamento do Ceasa que fica as margens de uma rodovia estadual. Sendo assim, a percepção de geração de emprego, trabalho e renda é direta. O que poucos conseguem perceber é que toda essa riqueza gerada na região só é possível em função da utilização do recurso hídrico, quer seja através da utilização dos córregos e dos rios, como também das águas subterrâneas que irão irrigar as culturas para a produção dos alimentos. Sem o uso desse recurso natural esses alimentos não podem ser produzidos. Sendo assim, se nós humanos não sobrevivemos sem água é possível afirmar que também não comeríamos nada se não tivermos água para produzi-los. Portanto, a água pode ser vista como aspecto de segurança alimentar relacionada a produção dos alimentos desta região e de outras.
As águas do Rio Dois Rios descem até que se encontram com o maior rio da região: O Paraíba do Sul. Nesse momento merece uma explicação como essa região do Rio Dois Rios se insere em uma abordagem mais ampla, dentro da bacia do Rio Paraíba do Sul. O Paraíba do Sul é um Rio Nacional, pois sua bacia hidrográfica drena as águas de três estados: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Toda região Hidrográfica do Rio Dois Rios é uma dentre 7 regiões hidrográficas que formam a totalidade da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul. Na região Hidrográfica do Rio Dois Rios, além da bacia do Rio Dois Rios propriamente dita, também fazem parte as bacias hidrográficas do Ribeirão das Areias, em Cantagalo e Itaocara, do Rio do Colégio em São Fidélis, além da belíssima região de São Sebastião do Paraíba, às margens do Rio Paraíba do Sul, e também a região das microbacias que drenam o município de Itaocara. Igualmente pertence a região do Rio Dois Rios uma microbacia do ribeirão do quilombo onde parte dessa área de drenagem pertence ao município do Carmo, cuja sede municipal fica em outra região hidrográfica, a do Rio Piabanha.
Itaocara possui uma população de 22.0694 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 431.335km² resultando em uma densidade demográfica de 53hab/km². Toda sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios. Itaocara possui um IDH-M de nível alto com valor de 0,713. Suas principais atividades econômicas estão no setor de comércio e serviço, setor da indústria e setor da agropecuária. Itaocara, assim como São Fidélis, apresentam significativa atividade de pesca, reflexo da influência do Rio Paraíba do Sul junto ao município.
No ponto em que as águas do Rio Dois Rios se encontram com as águas do Paraíba do Sul marca o limite da Região Hidrográfica do Rio Dois Rios. Mas é muito mais do que um simples encontro de dois rios. É um encontro das águas que passaram parcialmente pelos municípios de Nova Friburgo, Trajano de Moraes, Santa Maria Madalena e São Fidélis, e passaram pelo território inteiro de Bom Jardim, Duas Barras, Macuco, Cordeiro, Cantagalo e São Sebastião do Alto. E neste ponto encontram-se com as águas que passaram por parte dos territórios fluminense, mineiro e paulista. Portanto, as águas presentes na foz do Rio Dois Rios trazem todas as marcas impressas pela ação do homem, ao longo de todo o caminho percorrido. Isso reflete como a sociedade que vive em sua bacia hidrográfica se relaciona com seus rios. Após o encontro, as águas da Região do Rio Dois Rios que iniciaram sua trajetória lá nas nascentes do alto das montanhas de Nova Friburgo e de Duas Barras seguem o seu inevitável curso de encontro com o mar, através do leito do Rio Paraíba do Sul.
Continuando o seu caminho, as águas passam pelo município de São Fidélis. Este município possui a segunda maior população da bacia, com um total de 37.689 habitantes distribuídos em uma extensão territorial de 1.031.562 km² resultando em uma densidade demográfica de 36hab/km². Parte de sua extensão territorial está inserida na Região hidrográfica do Rio Dois Rios, e a outra parte na região hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul. Possui um IDH-M de nível médio com valor de 0,691. Suas principais atividades econômicas estão nos setores do comércio, serviço e agropecuário. São Fidélis, assim como Itaocara, apresentam significativa atividade de pesca, reflexo da influência do Rio Paraíba do Sul junto ao município.
No Paraíba do Sul é possível ver a imensidão da degradação gerada ao longo de toda a sua bacia. O processo de assoreamento transforma o rio muito raso em São Fidélis onde até canoas precisam ser puxadas pelo homem durante sua passagem em suas águas. Imagine que no passado foi navegável, existindo inclusive um porto. É possível notar que sua largura de centenas de metros fica reduzida na seca de 10 a 20 metros em alguns trechos. Todo o leito do rio foi tomado pelos bancos de areia e como resultado da erosão do solo em regiões que estão rio acima. Esse problema é consequência de fatores como o desmatamento, uso e a ocupação inadequada do solo e manejo inadequado por atividades agrícolas. Ao sair de São Fidélis as águas do Rio Paraíba do Sul deixam definitivamente o relevo de serra com suas montanhas para entrar na planície do Norte Fluminense.
De formação recente na escala da geologia, a baixada Campista é o resultado de muitos anos de deposição de sedimentos carreados pelas águas do Rio Paraíba do Sul. Ao serem, ano após ano depositados em sua foz esses sedimentos formaram toda essa região da baixada Campista. A primeira cidade na baixada que as águas do Paraíba do Sul vão encontrar seu caminho é a cidade de Campos dos Goytacazes. Campos dos Goytacazes é uma cidade que pertence a Região hidrográfica do Baixo Paraíba. Possui a maior população do interior do estado, com 490.288 habitantes. Nesta região existe a utilização da água na agricultura, no saneamento, na indústria e na pesca. Destaca-se o uso da água na agricultura, setor fundamental na história da economia desse município, do Estado e do País. Esta região foi grande beneficiadora de cana para a produção do açúcar. No final da década de 70 do século passado com o programa federal do Pró-Alcool, a região passou igualmente a produzir o etanol. Atualmente a indústria da cana-de-açúcar na região está em completo declínio. E nas áreas que até poucos anos atrás foram plantadas cana de açúcar por séculos, estão sendo rapidamente substituídas pela atividade de pecuária bovina de corte e de leite. O município atualmente tem outras atividades além das relacionadas com a agropecuária, mas cabe destacar a existência de um polo de desenvolvimento acadêmico-científico com instalação da primeira Universidade Pública do Estado do Rio de Janeiro no interior fluminense. Trata-se da Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro criada na gestão do Governador Leonel Brizola, seguindo as ideias do educador Darcy Ribeiro. Atualmente é formadora de excelentes profissionais e produz um pensamento crítico na região e no Brasil, e também gera as soluções para os problemas regionais. Após passar por Campos dos Goytacazes as águas do Paraíba do Sul seguem seu caminho em direção ao município de São João da Barra.
São João da Barra está totalmente inserido na bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul. Possui uma população de 35.174 habitantes. O município tem intensa atividade pesqueira. Porém, na última década a indústria do petróleo e a instalação de um grande porto off-shore incrementou a atividade econômica do município. Depois de passar por São João da Barra as águas seguem finalmente ao final de sua jornada. É na localidade denominada Atafona que o Rio Paraíba do Sul se encontra com as águas do mar.
Depois de percorrer centenas de quilômetros, de passar por regiões preservadas e poluídas, de ser utilizada em uma fábrica, ou como bebida para as pessoas, de receber cargas e mais cargas de esgoto e outros poluentes, enfim, essa água se mistura com a água salgada do mar. E é justamente neste ponto de encontro da água doce com a água salgada que um dos aspectos mais dramáticos da bacia hidrográfica acontece. Há décadas a região de Atafona sofre com o avanço do mar. São diversas as causas dessa erosão costeira e esses fatores ainda estão sendo discutidos pela comunidade científica. Dentre as causas mais importantes, destacam-se: o regime de ventos e de ondas; a contenção de sedimentos nos barramentos ao longo do Rio Paraíba do Sul; a regularização da vazão do rio e sua descarga no Oceano Atlântico e o crescente assoreamento do Rio Paraíba do Sul. No que diz respeito ao fator vazão, é como se fosse uma queda de braço entre o rio e o mar. O “braço” mar avança sobre o “braço” rio, que perde suas forças por causa da diminuição de sua vazão. Outro importante fator é a contenção de sedimentos. Neste caso, o rio não consegue despejar no mar a quantidade de sedimentos que historicamente despejava. Ou seja, a alteração na dinâmica de transporte de sedimentos resultado de implantação de diversas barragens ao longo da bacia do Paraíba do Sul também influenciam nesse cenário de ruínas.
O avanço do mar sobre a calha do rio provoca um problema ambiental sutil e silencioso que poucos conseguem perceber. A água do rio passa a ficar salgada e nessas condições sua captação para o abastecimento público fica completamente comprometida. O município de São João da Barra tem momentos de impossibilidade de captar água para o abastecimento da população. Outra consequência devastadora desse avanço da água salina é que ela acaba promovendo um processo de salinização do solo. E com o solo salinizado não é possível produzir nada!
Nessa viagem onde acompanhamos o caminho percorrido pelas nossas águas, do alto das serras de Nova Friburgo até sua chegada ao mar, em Atafona foi possível verificar que ela é utilizada para os mais diversos usos: agricultura, Indústria, agropecuária, pesca, saneamento, geração de energia e lazer e ainda é necessário assegurar as condições mínimas para a sobrevivência dos organismos que vivem nela. Ou seja, o ecossistema fluvial. Foi possível verificar que a água é simplesmente o recurso natural fundamental para a sobrevivência das pessoas, da produção de alimentos, da produção industrial, da produção de energia, enfim, da geração de emprego, renda, saúde e bem-estar. A água representa potencial de desenvolvimento econômico-social, pois não haverá investimento se não existir disponibilidade de água para ser utilizada nesses setores econômicos. Diante dessa constatação é necessário que a sociedade utilize esse recurso natural de forma racional. É pura estupidez ter uma sociedade que destrói a qualidade das suas águas com lançamento de poluentes sem a menor preocupação dos impactos gerados por estas ações rio abaixo.
Não podemos ser ingênuos de imaginar que não haverá impacto sobre nossos rios com os diversos usos da água em nossa sociedade. Quando falamos de recursos hídricos a visão não pode estar confinada aos limites políticos dos municípios ou estados. Pois a água não respeita esses limites. Nessa jornada das águas podemos verificar que uma ação em determinado local gerará um impacto em outra região. Ou seja, há necessidade de termos uma visão integrada de toda a bacia hidrográfica, de modo que suas águas sejam utilizadas com sabedoria e responsabilidade.
Mas como poderíamos reunir tantos interesses diversos: empresas de saneamento, fábricas, geradores de energia, agricultores, pecuaristas, colônia de pescadores, instituições municipais, estaduais e federais e a sociedade civil em geral? Cada um tem seus interesses específicos com relação a água! E muitas vezes, os interesses são conflitantes. A solução veio com a Política Nacional de Recursos Hídricos, através da Lei Federal n° 9433 de 1997. Ela instituiu o Sistema Nacional de Recursos Hídricos que tem como um de seus componentes, um órgão colegiado com competência deliberativa para as questões de gestão dos recursos hídricos. O nome desse colegiado é Comitê de Bacia Hidrográfica. Esse colegiado tem a função de reunir todos os interessados na gestão de água em sua bacia hidrográfica. Reunir numa mesma “mesa de conversa” as empresas usuárias, as instituições públicas, a sociedade civil organizada, resolverem seus conflitos e deliberarem sobre medidas de gestão que assegurem a melhoria da qualidade e da quantidade da água da bacia. E assim garantir o acesso da água para os diversos tipos de uso existente nela.
O caminho das águas que mostramos nesse documentário compreende a região do Comitê de Bacia Hidrográfica Rio Dois Rios que abrange 12 municípios como Nova Friburgo, Bom Jardim, Duas Barras, Bom Jardim, Trajano de Moraes, Cordeiro, Macuco, Cantagalo, Carmo, Itaocara, São Sebastião do Alto, Santa Maria Madalena e São Fidélis. Do ponto em que as águas do rio Dois Rios se encontram com as do Paraíba do Sul até o seu encontro com o mar, é igualmente uma região de atuação do Comitê da Bacia Hidrográfica Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana. Essas duas bacias hidrográficas fazem parte dos sete comitês que formam o Comitê de Integração da Bacia do Paraíba do Sul – o Ceivap.
Ao percorrermos o caminho realizado pelas águas que correm nos rios de nossas cidades descobrimos que elas são o puro reflexo de como a sociedade trata o espaço que ocupa. E se você não está satisfeito com o que vê nos rios de sua cidade? Procure o Comitê da Bacia Hidrográfica de sua região hidrográfica e comece a trabalhar para modificar as condições que lhe traga insatisfação, através de sua participação nestes colegiados. Será a melhor escola para você realmente aprender como é a sua região, tanto nos aspectos naturais, quanto nos econômicos, sociais, culturais, históricos, políticos...enfim, aprender como sua região é integrada pelo fio condutor da água. O comitê de bacia hidrográfica do Rio Dois Rios espera por você em sua próxima reunião. Pois água é vida. Água é futuro. Água é você!
Texto de André Bohrer Marques
Médico Veterinário; M.Sc. Biociências e Biotecnologias; e D.Sc. Ecologia e Recursos Naturais. Coordenador de núcleo na AGEVAP
Comments