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MEMÓRIA ORAL: COSTINHA



No artigo de hoje recorri ao Caderno de Cultura, na série Memória Oral, coordenado pela professora Maria Suzel Coutinho Soares da Cunha. O entrevistado é José Pereira da Costa Filho, o Costinha, militante do Partido Comunista. A entrevista foi dada em 26 de outubro de 1983. Costinha trabalhou até os 14 anos de idade no Parque São Clemente. A seguir em uma olaria e por fim na Fábrica de Rendas Arp. Há uma particularidade. Trabalhou na construção de barracões no Sanatório Naval, um episódio bem interessante na história de Nova Friburgo. Oficiais e marinheiros da Marinha Mercante alemã foram detidos no nordeste do Brasil, na ocasião da Primeira Guerra Mundial. Um grupo foi trazido para Friburgo e aprisionados naquele estabelecimento militar. Costinha relata que haviam 1.500 prisioneiros alemães, o que me parece um número muito exagerado. Foi jogador do Esperança Futebol Clube e como o trabalho na olaria prejudicava o seu desempenho no time foi cooptado para trabalhar na Fábrica de Rendas Arp. Era muito comum à época os bons jogadores de futebol serem contratados pelas fábricas, por influência dos dirigentes dos clubes, para terem um bom emprego.


De acordo com Costinha, a necessidade da formação do sindicato dos tecelões surgiu de uma tensão entre os empregados e a direção da Fábrica Ypu. Mas foi notadamente o apoio do advogado e jornalista Comte Bittencourt que deu origem ao sindicato, tornando-se o seu patrono. Bittencourt foi um dos articulistas em Nova Friburgo da Revolução de 30, juntamente com o capitão Brasiliano Americano Freire e José Galeano das Neves. Segundo Costinha, muitos operários não entraram para o sindicato temendo perder os seus empregos. Quando surgiram as primeiras leis do governo Getúlio Vargas favorecendo os trabalhadores, Costinha declara que foram ignoradas pelos proprietários das fábricas que tinham resistência em implementá-las. Os operários que pressionavam pela sua execução “sofriam consequências dentro das fábricas”, como a demissão. Uma das reivindicações era em relação a insalubridade, sobretudo dos que trabalhavam no setor de tinturaria. Reivindicavam um exaustor para tirar emanações de gases, luvas, óculos, distribuição de leite e diminuição do tempo de trabalho para a aposentadoria aos trabalhassem nesse setor. Eram igualmente reivindicações dos trabalhadores do setor têxtil um aumento de 50% para os menores, 25% para os adultos e salário idêntico para os que tivessem as mesmas funções, principalmente quando os menores executassem o mesmo serviço que os adultos. Para as mulheres solicitava-se a criação de creches e direito à parturiente de ter dois meses de repouso antes e depois do parto. Costinha insiste que houve resistência do patronato em dar cumprimento às leis trabalhistas instituídas por Vargas, a exemplo da lei de férias.


Segundo ele, a remuneração das férias somente iria ser aplicada pelas fábricas têxteis dez ou doze anos depois de instituída. Entre os anos de 1932 e 1933, ocorreram algumas greves e uma delas culminou com a morte de um operário, ficando vários feridos no confronto com as forças de ordem. Um dado importante trazido por Costinha foi que o desenvolvimento das indústrias acelerou a partir da Segunda Guerra Mundial. Como a Europa e os Estados Unidos estavam envolvidos no conflito mundial e consequentemente suas indústrias voltadas para o esforço de guerra, as indústrias têxteis friburguenses ocuparam parte de seus mercados. Costinha declarou que era um progresso extraordinário e a fábrica funcionava sem parar com dois turnos de trabalho. Ele destaca que a grande oferta de emprego nas indústrias esvaziou o campo.


Nesse período, sabemos que o principal distrito agrícola era Amparo, que paulatinamente foi diminuindo sua população que se deslocava para o centro da cidade para trabalhar nas indústrias. Não havia ônibus em Nova Friburgo até meados do século vinte. Ia-se trabalhar nas fábricas a pé e os tamancos ribombando na madrugada pelas ruas até o uso da bicicleta, quando esse meio de transporte se tornou mais acessível a classe trabalhadora. Urgia residir próximo a fábrica. Logo, a partir de 1940, surge o bairro de Olaria com loteamentos promovidos por Júlio Espanhol, proprietário de uma grande área. Os lotes vendidos pelo imigrante espanhol eram muito baratos, segundo o memorialista. Costinha participou do Sindicato dos Tecelões desde a sua formação em 1931, até o ano de 1948. Após vinte e nove anos trabalhando na Rendas Arp foi demitido.




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