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MEMÓRIA DAS INDÚSTRIAS: FÁBRICA YPU

Atualizado: 18 de fev. de 2021



Um galpão no Sítio Ypu


Inicialmente gostaria de esclarecer que todos os três artigos sobre a Fábrica Ypu têm como fonte tão somente o depoimento de Brigitte Madeleine Schultz, da família Pockstaller e do memorialista Décio Monteiro Soares, no livro “Terra Friburguense”. Quem sabe essas notas estimulem pesquisadores a se debruçarem sobre fontes primárias e através da análise de uma documentação, e com rigor científico, demonstrem como as indústrias mudaram a história de Nova Friburgo. Em 10 de julho de 1912, Maximilian Falck juntamente com Willian Peacock Denis inicia em um galpão, às margens do Rio Santo Antônio, a fabricação de ligas, suspensórios e passamarias. Nessa ocasião, a atividade econômica em Nova Friburgo advinha fundamentalmente da agricultura e subsidiariamente do turismo. Sob a razão social de M. Falck & Cia, escolheu-se o nome fantasia de Fábrica Ypu por ter iniciado suas atividades no Sítio Ypu, de propriedade de Maximilian Falck, sua residência de verão. Há o registro dos primeiros funcionários sendo eles José Gonçalves, Amélia de Carvalho, Adolfo Iaggi, Ezídio Ferreira da Silva Assis, Johannes Friedrich Schimid, Caetano Alves da Cruz, Paul Max Kunzel, Alfredo Barro Beauclair, Júlio Piram e Alice Rodrigues dos Santos. Foram importados da Alemanha quatorze teares e a matéria-prima vinha toda de fora do país. Além da dificuldade na importação da matéria-prima o problema era a falta de operários especializados na pacata vila serrana para operar o maquinário importado. Em razão disso, gradativamente técnicos alemães vão sendo cooptados para trabalhar na indústria e Maximilian Falck recorreu até mesmo a marinheiros alemães da Marinha Mercante detidos no Sanatório Naval como prisioneiros por conta da Primeira Guerra Mundial. Essa mesma guerra beneficiou a fábrica de Falck, pois houve dificuldade na importação de produtos estrangeiros, podendo sua empresa ocupar mais espaço no mercado nacional. Transcorridos cinco anos desde a sua fundação, a fábrica já tinha 155 operários treinados por técnicos vindos da Alemanha. Nessa ocasião, retirou-se da sociedade Willian Peacock Denis e dois anos depois são admitidos como sócios Julius Arp, proprietário da fábrica Rendas Arp, e João Haasis. Esse último falece no ano seguinte à sua admissão. Na década de vinte, além da passamanaria, a fábrica passa a ter oficinas de tecelagem, trançadeira, tinturaria, engomação, tipografia, cartonagem, oficina mecânica e carpintaria. Como os suspensórios estavam na moda entre os homens, e a empresa era grande produtora, chegou a ser conhecida como “fábrica de suspensórios”. Em 1924, passa a ser uma sociedade por quotas de responsabilidade limitada, tendo sido admitidos os sócios Hermann Ostman, como gerente geral, Antônio Edmundo Pockstaller, como gerente comercial e Emil Cleff, responsável pela produção. A introdução desses novos sócios será fundamental pois a Fábrica Ypu quase falira nos anos anteriores. Emil Cleff racionalizou a produção da fábrica e melhorou a qualidade dos produtos. Já Pockstaller incrementou as vendas, introduzindo a marca Ypu em todo o território nacional e reestruturou o escritório da empresa no Rio de Janeiro. Com o desenvolvimento da fábrica aumentou-se o capital sendo admitidos novos sócios como Max Falck Junior, Max Georges Cleff, filho de Emil Cleff, entre outros membros da família. Com essa alteração, retiram-se da sociedade Julius Arp e Hermann Ostman. Max Georges Cleff passa a ocupar o cargo de diretor possivelmente por influência de seu pai, responsável pelo setor de produção da fábrica. No ano de 1938, a Fábrica Ypu transforma-se em sociedade anônima e a razão social passa a ser Fábrica Ypu S.A. Maximilian Falck falece em 1944, deixando três herdeiros, Maximilian Falck Junior, Edith e Cecília Falck, essa última participando da administração da fábrica. Cada um herdou 30% da empresa e os 10% restantes estavam divididos entre os Cleff e um outro sócio. Na realidade, quem administrava a fábrica eram os Cleff, já que os Falck seguiam o conselho do patriarca Maximilian Falck de deixar a administração da empresa com os primeiros. Maximilian Falck Junior falece em um acidente de avião e Edmundo Pockstaller, marido de Edith, não interfere na administração da tríade formada por Emil e Max Cleff e Oscar Schultz, genro do primeiro. Depreende-se que foram os Cleff, juntamente com o diretor industrial Oscar Schultz, os responsáveis pelo grande crescimento da Fábrica Ypu, tornando-a na potência que chegou a ser durante décadas.


Emil Cleff, o rei do galão


Charles Emile Cleff, conhecido no Brasil como Emil Cleff, nasceu em 07 de abril de 1869, em Wuppertal-Barmen, na Alemanha. Filho de tradicional família de industriais no ramo têxtil veio ao Brasil pela primeira vez em 1893, para reorganizar uma fábrica de tecidos na Bahia. Retorna à Europa após ter dado a consultoria. Na cidade de Flinez-lez-Montagne, na França, fundou a sua própria fábrica no ramo de passamanaria sob a razão social de Cleff & Cie. Foi nessa atividade que Cleff mostrou o seu gênio criador e artístico na fabricação de complexos e lindos galões e fitas decorativas com os mais variados desenhos e harmonia de cores. Paulatinamente, a Cleff & Cie foi dominando a maior parte do mercado europeu, sendo Cleff denominado à época de “o rei dos galões”. Como apresentava sempre novos e originais desenhos não acompanhava a moda, mas sim, criava tendências. No entanto, a sua indústria foi bombardeada na Primeira Guerra Mundial com perda total de seu patrimônio. Como prestara consultoria no Brasil, vislumbrou nesse país a oportunidade para reerguer-se financeiramente. Em 1921, viaja para o Brasil já tendo estabelecido contato com Maximilian Falck, proprietário da Falck e Cia, que fabricava artigos de passamanaria. De acordo com a Memória Oral, Julius Arp teria aconselhado Maximilian Falck a contratar Emil Cleff, alertando que se ele abrisse a sua própria fábrica seria a falência da Ypu. Contratado, depois de um ano comandando o setor de produção da fábrica, Cleff comprovou a Maximilian Falck que sua empresa passara a ter lucro, nos informa sua neta Brigitte Madeleine Schultz. Emil Cleff racionalizou a produção da fábrica e melhorou a qualidade dos produtos. Faltam pesquisas baseadas na documentação da fábrica, mas nos parece que foi a partir de sua interveniência na linha de produção que a Fábrica Ypu cresceu sobremaneira. A respeito dessa documentação, encontra-se amontoada e se deteriorando em salas abandonadas nas instalações dessa fábrica, o que certamente impossibilitará a reconstrução da história dessa empresa. Em 1938, a Falck e Cia se transforma em uma sociedade anônima, a Fábrica Ypu S.A. Cumpre chamar a atenção que essa empresa cresce no momento em que o Brasil tinha um parque industrial ainda muito incipiente. Somente a partir da Segunda Guerra Mundial(1939-1945) o país irá iniciar a sua fase industrial. Não foi por acaso que Getúlio Vargas quando excursionava pelo interior do Estado, em 1932, visitou Nova Friburgo. As indústrias desse município devem ter chamado a atenção do Presidente da República que tinha como projeto impulsionar o setor industrial no Brasil. A Fábrica Ypu era a grande paixão de Emil Cleff. Ele residia numa casa modesta logo na entrada da fábrica onde criou a sua família. Nos fundos do prédio ficava seu “Fordeco”, um dos três primeiros automóveis a circular em Nova Friburgo. O seu filho Max Cleff e o seu genro Oscar Schultz darão continuidade à sua gestão na fábrica, e nos parece que Emil Cleff nunca deixou de acompanhar a sua administração. Faleceu em 21 de dezembro de 1968, com 99 anos de idade. A avenida em frente a Fábrica Ypu chama-se Emil Cleff e no seu pátio interno existe um busto em sua homenagem. É bem provável que se o rei do galão não tivesse se mudado para Nova Friburgo, a trajetória da Fábrica Ypu teria sido bem diferente.


Um bairro surge ao redor da fábrica


Um bairro surge ao redor da fábrica, o bairro Ypu, outrora Sítio Ypu de propriedade de Maximilian Falck. Aumenta o número de residências ao seu redor, o comércio se amplia e se diversifica. Tudo gira em torno da fábrica. Em 1938, a Fábrica Ypu se transforma em sociedade anônima aumentado cada vez mais o número de operários. Diversas ações são realizadas e a fábrica passa a ser não apenas um local de trabalho, mas igualmente um espaço de sociabilidade. Em 1944, foi inaugurada a Recreativa Ypu para atividades sociais e esportivas dos funcionários. Era um tempo em que a fábrica era a extensão dos lares dos operários, em que tinham ciúmes de suas máquinas e o apito da fábrica regia as atividades do bairro. Cada indústria tinha o seu time de futebol e grupos de atletas. A formação dessas equipes deu origem aos jogos olímpicos, conhecido como Jogos dos Industriários, que reunia todas as indústrias. A Rendas Arp tinha inclusive uma enorme área de treinamento no coração do bairro de Olaria para os atletas se exercitarem durante todo o ano. As modalidades aconteciam nas instalações esportivas das fábricas, no Campo do Friburgo e no hoje conhecido como Estádio Frederico Sichel. É bem possível que essas olimpíadas fossem uma estratégia para tirar o foco dos operários para o movimento sindical. De qualquer forma era um dos eventos mais importantes da cidade. Além da prática esportiva, os funcionários da Ypu tinham benefícios como assistência médica e dentária. Havia também em suas instalações um salão social com palco para teatro e projeções cinematográficas. Em 1945, algumas residências foram construídas para os operários ao redor da fábrica constituindo a Vila Operária, uma prática comum entre as indústrias. O diretor de produção Emil Cleff residia com a sua família dentro da fábrica em uma modesta residência. Lembrando que a comunicação na época era mais difícil e não havia serviço de ônibus entre os bairros até meados do século vinte. Os operários se deslocavam por meio de bicicletas ou a pé para o trabalho. A Fábrica Ypu foi crescendo e se adaptando ao mercado. Conhecida como a “fábrica de suspensórios”, como esse acessório masculino caiu em desuso, passaram a fabricar cinto de couro masculino para substituir esse produto. Instalam um curtume para curtir o próprio couro e passam a produzir uma linha de cintos com o nome de “Friburgo”, e a seguir carteiras para dinheiro. No balanço do ano de 1958, a fábrica contava com 1.026 operários e cerca de 90% da matéria-prima, antes importada, já era nacional. Podem ter tido problema no transporte das mercadorias com o fim da linha férrea em 1964, pois as estradas eram muito ruins. Na década de setenta, a empresa investe em equipamentos novos de bordados com máquinas importadas da Alemanha. Lembrando que a especialidade da fábrica era a confecção de passamanaria, sianinha, guipir, bordado inglês, bico de renda, cordão etc. Um restaurante com capacidade para oferecer 3.000 refeições diárias é construído na década de setenta em que já contava com aproximadamente 1.200 funcionários. A empresa foi ampliando cada vez mais as suas instalações sendo autossuficiente em tudo, produzindo inclusive a embalagem de seus produtos no setor de cartonagem. Dispunha de oficina mecânica, carpintaria e chegou ao ponto de fabricar algumas máquinas da produção que antes eram importadas. Seu parque industrial tinha 44.000 mil metros quadrados de construção. Suas instalações tomam proporções tão imensas que atraía a atenção de quem chegava a Nova Friburgo.


Na terceira geração, o declínio


A industrialização brasileira é tardia. Somente em 1945, a indústria nacional irá superar a agropecuária como a principal atividade da economia. O meio urbano até a década de 1920, concentrava apenas 20% da população brasileira. Os setores agrários acusavam a indústria de desviar braços do campo para as suas atividades. Em Nova Friburgo ocorreu o esvaziamento do distrito agrícola de Amparo para o centro da cidade, pois uma nova geração queria trabalhar nas indústrias. O debate era dividido entre duas correntes, uma que defendia a vocação agrícola de Nova Friburgo e a outra que se posicionava a favor da industrialização. Galiano Emílio das Neves Junior, conhecido como Coronel Chonchon, defendia a primeira vocação e Galdino do Vale Filho, a segunda. Mudam as relações de trabalho. A Consolidação das Leis Trabalhistas, firmada em 1943, e a criação da Justiça do Trabalho para dirimir conflitos, revoluciona as relações entre patrões e empregados. A nova legislação trabalhista onerava a atividade industrial reduzindo a acumulação nesse setor, mas a Fábrica Ypu cresce dentro desse contexto. Na década de sessenta, Harold Anton Pockstaller começa a disputar espaço na administração da Fábrica Ypu. Mas a presença do decano Emil Cleff sempre foi um obstáculo às suas pretensões. Porém, o falecimento de Cleff em 1968, abriu caminho ao neto de Maximilian Falck, fundador da empresa. Mas a administração de Harold Pockstaller leva a fábrica a uma grave crise financeira. Na realidade, a crise foi em todas as indústrias de Nova Friburgo e possivelmente está relacionada com o contexto econômico do país naquele período. O fato é que entre os funcionários da fábrica corria a seguinte frase, “o avô fundou, o neto afundou”. Transcorridos aproximadamente quinze anos de sua gestão, a fábrica entra em processo de falência. Mais de uma centena de funcionários são demitidos. Willian Khoury, do grupo Sayonara, assume o controle acionário da fábrica. Mesmo estando a empresa em crise e com muitas dívidas, investe na renovação do maquinário. Mas o gigante agoniza. Os tempos eram outros. Os produtos químicos que por décadas as indústrias despejavam nos rios da cidade passa a ser alvo de fiscalização por parte de órgãos de proteção ambiental. A Companhia Estadual de Controle Ambiental exigiu da empresa um projeto no setor de tinturaria para evitar a poluição dos rios e igualmente a construção de uma estação de tratamento. Nessa altura, era impossível para a Fábrica Ypu se adequar às leis ambientais e notadamente as trabalhistas como pagamento de décimo terceiro salário, carteira assinada, salubridade e benefícios assistenciais. Empregava menores sem assinar carteira, atrasava os salários, não recolhia o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e também não contribuía com o INSS. O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Nova Friburgo não dava trégua. Como a fábrica não teve como se manter com tantas dívidas trabalhistas e fiscais seu prédio foi leiloado pela justiça. A Prefeitura Municipal de Nova Friburgo arrematou o imóvel que passa a ser de sua propriedade. Quem melhor explica a época de ouro da Fábrica Ypu é o antigo operário Zei Marques da Silva que escreveu uma carta ao jornal A Voz da Serra, publicada em 15 de março de 2006. “Admitido na Fábrica Ypu em 10 de maio de 1950, na função de aprendiz de mecânico, iniciei minha trajetória profissional. (...) Porque meu segundo lar? Ali eu vivia a maior parte do dia, se isso não bastasse, também ali trabalhavam meu pai, meus irmãos, sobrinhos, cunhada, primos, vizinhos, amigos dos meus pais e meus amigos. Todos eram parentes ou amigos, realmente um segundo lar para todos nós. Permaneci na Fábrica Ypu 44 anos(...)se não fossem suficientes os 44 anos dentro da fábrica em horário de trabalho, ao sair corria para a Recreativa Ypu, que era ligada à fábrica, para praticar vôlei, basquete e futebol Society. Não só nos dias de semana, mas também aos domingos. Em época de festa junina, todas as noites ensaiávamos quadrilha. No fim de semana, eram cinema e bailes na fábrica. (...)Pela grandeza que foi a Fábrica Ypu, pelo muito que colaborou com os seus empregados, porque muitos como eu, através da fábrica, conseguiram construir uma casa e formar uma família. Por tudo que a fábrica fez pela cidade de Nova Friburgo, gerando empregos e elevando o nome da cidade, eu gostaria de ver contadas não somente estas simples linhas, mas uma verdadeira história contada por um historiador sobre a Fábrica Ypu. Realmente ali era o meu segundo lar, ou melhor, nossos segundos lares, porque tenho a certeza de que muitos que ali trabalhavam pensam como eu. Quem não se lembra dos famosos bailes orquestrados que a fábrica nos proporcionava nos fins de semana, das feijoadas de primeiro de maio, das distribuições de brinquedos nas festas natalinas, os jantares de fim de ano quando eram homenageados todos os funcionários que completavam 25 e 50 anos de fábrica e as domingueiras depois de um farto almoço servido na Recreativa? (...) Saudades ainda tenho daqueles tempos de felicidade que vivíamos juntos. Hoje podemos dizer, com toda certeza, que nós não estávamos em um local de trabalho, mas, sim, em nosso segundo lar, ou melhor, no prolongamento do nosso lar.” Curiosamente, mesmo penhorada, alguns funcionários permaneceram na fábrica produzindo tecidos bordados. Já não necessitam mais da orientação dos técnicos alemães para operarem as velhas máquinas que são quase como membros de seus corpos.



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