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COLONOS SUÍÇOS MONNERAT: UMA HISTÓRIA FAMILIAR

Atualizado: 1 de mar. de 2021



O município de Cantagalo foi para onde os Monnerat e muitos outros colonos suíços se dirigiram, abandonando o Núcleo Colonial de Nova Friburgo. A região em que se estabeleceram inicialmente os Monnerat é atualmente o município de Duas Barras. Desde longa data com os seus morros cobertos por verdejantes cafezais o fim do ciclo do café na serra fluminense ocasiona a migração da atividade econômica dos fazendeiros para a pecuária. Em Duas Barras, passando pela estrada, avistamos na estação de trem a nome da família Monnerat. Estamos exatamente em um distrito desse município que leva o nome de Monnerat. Mas quem foi essa família e por que ganharam um distrito com o seu o nome? Sua história no Brasil, remonta ao princípio do século XIX, com o colono suíço François Xavier Monnerat, sua esposa Elizabeth Koller e seus sete filhos: Ursanne Joseph, Jean Joseph, Sébastian, Marie Barbare Régine, François, Marie e Henry François.


O estabelecimento de um Núcleo Colonial em Nova Friburgo se inicia quando D. João VI aceita a proposta do Cantão de Fribourg, através de seu agente Sébastien-Nicolas Gachet, para receber colonos suíços. A imensidão territorial brasileira demonstra a utilidade do povoamento pelos europeus. Decidiram estabelecer a colônia na Fazenda Morro Queimado, no distrito de Cantagalo, que estava no início do seu povoamento. Essa fazenda se desmembraria de Cantagalo, ganharia autonomia e em 03 de janeiro de 1820, surgiria oficialmente Nova Friburgo, nome em homenagem ao Cantão de Fribourg no qual vieram muitos suíços. Na ocasião, foram feitos juízos negativos sobre a qualidade dos colonos suíços. Segundo opiniões, Nova Friburgo não foi fundada por suíços livres, mas por indivíduos que a Confederação Helvética queria se livrar. Assim, os primeiros habitantes de Nova Friburgo teriam sido indivíduos desterrados. Monsenhor Miranda, Inspetor da colonização suíça, acusava os cantões de terem formado a colônia com forte proporção de vagabundos, condenados pela justiça e até mesmo por prostitutas. Em artigo publicado ao jornal La Liberté, em 1942, Robert Loup fala “de uma verdadeira operação de limpeza” feita pela Confederação Helvética. Dois anos depois, no Jornal do Comércio o acadêmico Taunay escrevia que a Suíça queria livrar-se dos cidadãos indesejáveis. Em 1967, o historiador friburguense Pedro Curio evocava a mesma ideia utilizando esta expressão muito significativa: “Não foi a nata da Suíça que veio para o Brasil”. No entanto, para o historiador Martin Nicoulin, a criação de Nova Friburgo não foi apenas o resultado de uma deportação, mas igualmente pela composição de homens laboriosos e empreendedores. Os Monnerat darão prova disso.


Segundo o tratado, D. João VI solicita inicialmente apenas cem famílias de colonos, o que daria aproximadamente 800 pessoas. O agente Gachet para admitir maior número e burlar o contrato, criou o conceito de família artificial, que se compõe de 16 a 18 indivíduos cada uma delas. Logo, cada família artificial seria composta por três ou quatro famílias naturais. Uma vez no Brasil, os membros desta família artificial cultivariam em comum o mesmo lote de terra. Ao partir da Suíça, os colonos emigrantes eram mais de dois mil. Porém, apenas 1.631 chegaram ao Brasil, em razão dos falecimentos durante a viagem. Como os veleiros dependiam da força do vento, o trajeto poderia durar muitos meses. Associado às condições materiais precárias, era natural a morte por doenças nessas viagens.


Chegando a Fazenda do Morro Queimado foi reservada uma área específica para distribuir datas de terras aos colonos, denominadas de números. No entanto, a maioria das terras era incultivável. Somente uma minoria teve a sorte de receber terras relativamente boas. Mesmo produzindo, o acesso ao mercado era difícil pois não haviam estradas ou picadas para chegar a vila de Nova Friburgo. Os colonos suíços ficaram isolados no Núcleo Colonial. Porém, não se conformaram e iniciou-se uma evasão para outras regiões, como Cantagalo, e em direção à Macaé de Cima, um prolongamento do Núcleo Colonial. Localizei um documento em que vários colonos exploram Macaé de Cima e entre eles estava a família Monnerat. A população de 1.662 suíços, em 1820, ficará reduzida a 632, dez anos depois. A presença de colonos suíços em Cantagalo será equivalente ou ultrapassará a de Nova Friburgo. Os que permaneceram dedicaram-se às culturas do milho, do feijão, da mandioca e do fabrico do toucinho. Para o historiador Martin Nicoulin, ainda que a administração tivesse sido perfeita, a maioria dos imigrantes teria ido embora. O destino que lhes oferecia Nova Friburgo não correspondia às suas aspirações. Não tinham vindo ao Brasil para sobreviver e vegetar, mas para progredir e fazer fortuna. Achou-se que os suíços iriam contentar-se com a economia de subsistência e se enganaram. Foi o caso da família Monnerat que anos depois mudaria para Cantagalo. François Xavier Monnerat, sua esposa e sete filhos partiram da Suíça em 1819, do Cantão de Berna, depois denominado de Jura. Chegaram ao porto do Rio de Janeiro em 08 de fevereiro de 1820, a bordo do veleiro Camillus, após de uma viagem de 5 longos meses.


François Xavier Monnerat tinha 42 anos de idade e sua esposa 35 anos. Considerando a expectativa de vida naquela época, era uma idade bem avançada para começar uma vida no Novo Mundo. Provavelmente pensavam no futuro de seus filhos. Seu filho mais velho Ursanne Joseph tinha 17 anos, Jean Joseph 15, François 13 anos, Sébastian 6 anos e Henry 4 anos de idade. Tinham duas filhas, Marie e Marie Bárbara Régine com 8 e 12 anos, respectivamente. Encontramos alguns suíços requerendo sesmarias à Câmara Municipal de Nova Friburgo alegando possuir muitos filhos homens. Era uma condição fundamental para se conseguir terras devolutas ter escravos ou força de trabalho masculina na família. A família Monnerat era de tradição de agricultores e chegaram ao Brasil muito pobre. François Xavier Monnerat recebeu a data de terras de número 58. No entanto, não sabemos que famílias dividiram com os Monnerat essa área, já que as doações de terras eram feitas às famílias artificiais. E assim iniciam sua atividade no amanho da terra. Em julho de 1820, há um requerimento de François Monnerat na Câmara Municipal solicitando autorização para vender carne e toucinho na vila. Parece-nos que muitos suíços vendiam milho para os tropeiros que passavam pela vila de Nova Friburgo, vindos de Cantagalo. Possivelmente os Monnerat participavam desse comércio e no contato com os tropeiros, tempos depois se mudariam para Cantagalo, exercendo essa atividade. Em novembro de 1837, dezessete anos após a sua chegada à Vila de Nova Friburgo, já temos registro dos Monnerat adquirindo terras em Cantagalo. Jean Joseph e seu irmão Sébastian adquirem a sesmaria Rancharia do Norte também chamada de Rancharia de Dentro. Era uma fazenda de 400 alqueires. Pertencera inicialmente ao padre Francisco Ferreira de Azevedo, vigário na Vila de Santo Antônio de Sá. Esse eclesiástico requerera ao Conde dos Arcos uma Carta de Sesmaria por se acharem aquelas terras devolutas, ou seja, abandonadas nas Novas Minas de Cantagalo. O pedido de mercê das sesmarias naquele tempo compreendia meia légua de terras em quadra. Mas houve outro proprietário antes dos Monnerat comprar essa fazenda. Como adquiriram essa propriedade para ser paga em parcelas fizeram um “papel de trato”, um compromisso de compra e venda daquela época. Honraram as prestações e no ano seguinte passaram a escritura definitiva em cartório. Nem o padre e nem o proprietário anterior à eles plantaram na Fazenda Rancharia do Norte, pois a escritura a descreve como terras brutas. A declaração dos Monnerat na escritura como sendo domiciliados no termo de Nova Friburgo, significa que Jean Joseph e Sébastian ganharam dinheiro nessa vila. Os irmãos levaram toda a família para sua nova propriedade, ficando em Nova Friburgo apenas Ursanne Joseph que parece ter se desentendido com Jean Joseph e Sébastian.


A casa da Fazenda Rancharia do Norte em que residiram era de pau-a-pique, construída aproximadamente em 1837. Os Monnerat se dedicaram à faina de tropeiros, transportando café e outras mercadorias de Cantagalo até Porto das Caixas, hoje município de Itaboraí. Além do transporte de mercadorias, adquiriam mulas magras no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, e as conduziam para engorda em sua propriedade, revendendo-as depois. A memória familiar diz que as mãos dos filhos do patriarca François Monnerat eram tão calejadas no manejo da enxada, da foice e do machado que se deformaram ao ponto de não poderem apertar as mãos dos conhecidos. Em 1845, Sébastian, na ocasião ainda solteiro e com 34 anos de idade, morre em um acidente quando conduzia uma tropa. O seu inventário nos permite saber o que os Monnerat tinham em suas propriedades. Na partilha dos bens de Sébastian constam 3 escravos, animais de tropa, cavalos, porcos, capados de ceva, gado bovino, milho, arroz e feijão. Ainda não plantavam café. A Fazenda Rancharia do Norte foi ampliada com a aquisição das propriedades Rancharia do Sul e Fazenda Monte Verde, em sociedade pelos irmãos Jean Joseph, François e Henry Monnerat. O irmão que permaneceu em Nova Friburgo parece ter prosperado. Ursanne Joseph aparece em 1855, adquirindo terras em Banquete. O patriarca François Xavier Monnerat viveu na Fazenda Rancharia do Norte até falecer, em 1858. Não há registro do falecimento de Elizabeth Koller, sua esposa. Iniciam os casamentos entre os Monnerat e outros descendentes de colonos europeus como os Wermeliger, Erhtal, Lemgruber, Lutterbach, Heggendorn e Cortat. Desses, apenas os Erthal são descendentes de colonos alemães, os demais, de suíços. Além de se casarem entre os seus pares, igualmente se uniam aos primos, uma prática muito comum naquela época, inclusive entre os brasileiros e portugueses. Um dos filhos do patriarca, Jean Joseph, comprou a Fazenda São João e a Fazenda Conceição com o rendimento de fretes de suas tropas de cargueiros. Jean Joseph faleceu em 1877, e nos parece ter sido o que mais prosperou economicamente. Seus descendentes se tornaram proprietários das fazendas Rancharia do Norte, São Vicente, Nossa Senhora da Guia, São João, Conceição, Conceição dos Pinheiros, Santo Antônio do Monte, Penedo, Jacaré, Riachuelo, além de inúmeros sítios. A linha férrea passa por dentro da Fazenda Nossa Senhora da Guia, a partir de 1879. A produção agrícola das propriedades dos Monnerat acarretou a construção da estação de trem para escoar o café e outros gêneros de suas fazendas. Desembarcavam suas mercadorias na parada denominada de “Chave de Santana”. No centro do distrito ergue-se a igreja de Nossa Senhora da Guia, construída em 1891, pela família Monnerat. O plantio do café utilizando a mão de obra escrava fez aumentar progressivamente o patrimônio desse tronco familiar. No tocante a mão de obra escrava, não há como negar a sua utilização para amealhar fortuna naquela época. Surge na memória familiar o relato de terem dado tratamento mais humano aos escravos, se é que podemos falar em humanidade na escravidão. Diziam acolher os “caiambolas”, negros fugidos de vizinhos que maltratavam seus escravos. Negociavam o seu retorno e pediam clemência por eles. Adquiriam igualmente escravos que tinham incorrido no desagrado de seus donos, mas isso não significava ausência de rigor na disciplina no trabalho, cujos exemplos vinham diretamente de seus donos. Ainda de acordo com a memória familiar, decretada a abolição da escravidão, a maioria dos escravos partiu das fazendas dos Monnerat pelas estradas, em delírio. No entanto, muitos regressaram como trabalhadores assalariados, colonos, meeiros e domésticas. Na Fazenda Rancharia do Norte, a abolição da escravidão nada alterou o ritmo dos trabalhos. Pelos caminhos, grupos de negros embriagados festejavam a liberdade. Contudo, a turma de cativos desta fazenda prosseguiu na capina vários dias seguidos.


Uma passagem curiosa ocorreu na Fazenda Rancharia do Norte. José Constâncio Monnerat, sabedor da lei que extinguia a escravidão, montou a cavalo e foi até a plantação de café. O escravo cearense Flauzino, mestiço de preto, branco e índio procurava exercer a sua função de feitor mesmo sabendo do fim da escravidão. José Constâncio reclamou a morosidade na arrumação do café. O escravo Gregório, descansou o braço na enxada, olhou para o senhor e disse: “Olha Nhô, Nhô, vancê precisa vê que, agora, nós sêmo tão bom, como tão bom”. José Constâncio com o rebenque aplicou-lhe uma punição diante da insolência do escravo Gregório, e em seguida, mandou que todos seguissem rumo a liberdade. Poucos dias depois, Gregório e outros ex-escravos, em sua totalidade, retornaram para a Fazenda Rancharia do Norte. O ex-escravo Gregório se tornaria uma pessoa querida da família. Os Monnerat adotaram o sistema de parceria agrícola contratando colonos portugueses, italianos e espanhóis com o fim o trabalho escravo. Segundo a memória familiar, os filhos foram educados na escola do trabalho rude e da economia. Eram do tipo que se ufanavam de que só compravam ferro, sal, pólvora e chumbo na vila. De resto, tudo produziam em suas fazendas. Não compraram títulos de nobreza, tão em moda naquela época. Aumentaram enormemente o seu patrimônio com a aquisição de fazendas falidas em decorrência da abolição da escravidão, exemplo da Fazenda Santana que pertencera ao Barão de Cantagalo. O juiz João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú escreveu em 1851, que os irmãos Monnerat, os Lemgruber e os Luterbach gozavam de apreciável fortuna. Teriam as alianças matrimoniais entre esses suíços sido a causa ou corroborado para o aumento crescente de seu patrimônio? Olhando o exemplo desses colonos, fica a seguinte indagação: Porque o brasileiro nato, o caboclo, tão pobre como esses colonos que aqui chegaram, raramente prosperavam? Fui buscar a resposta em Oliveira Viana, no livro Populações Meridionais do Brasil. Desde o período colonial, o latifúndio nunca deixou espaço para o pequeno e médio produtor rural. A tendência do grande domínio era entravá-los, asfixiá-los, eliminá-los e absorvê-los. O colonizador português utilizando a mão de obra escrava no modo de produção não precisava do homem livre pobre. Não havia lugar para ele. Além disso, o trabalho rural, assumindo um caráter essencialmente servil, tornou-se repulsivo. O preconceito do mameluco, do cafuzo, do mulato e do português pobre contra o trabalho rural, o trabalho enxadeiro das roças, servil, que é tarefa do negro, provocava essa repulsa. O colono luso, que aqui aporta, se deixa logo tomar por esse preconceito, embora agricultor em suas origens. O mestiço brasileiro, um desclassificado permanente, na condição de inferioridade, sem meios de requerer sesmarias torna-se agregado. A superioridade social era desde o período colonial ter a pele branca, provir de sangue europeu, não ter mescla com raças consideradas inferiores, principalmente a negra. Mesmo entre as classes populares, o fato de ser branco é o mesmo que ser nobre. Da propriedade da terra os mestiços foram afastados. Na Carta de Lei de 1809, em que D. João VI institui a Ordem da Torre e Espada, franqueiam-se tratos de terras para aumento da agricultura e povoamento somente a colonos brancos. Os mestiços, impedidos de terem acesso à terra eram geralmente cooptados por fazendeiros para compor suas milícias. Entram na rede de clientelismo, capanga temível do potentado, a soldo dos clãs familiares. Encontrei nesse autor a resposta possível do por que os brasileiros não logravam êxito na sociedade da época. Já são doze gerações desde que os colonos François Xavier Monnerat e Elizabeth Koller chegaram a Nova Friburgo em princípios do século XIX. De um único casal, hoje os Monnerat são em número de 7.500 domiciliados em várias cidades do país, ligados por alianças matrimoniais com os Lutterbach, Wermeliger, Erhtal e Lemgruber. Surpreende como cresceu a fortuna dos Monnerat, em menos de meio século. Gachet quando estimulava os suíços a imigrarem para o Brasil prometia que num prazo de vinte a trinta anos ficariam ricos ou gozariam de situação confortável. Os Monnerat acreditaram nessa promessa e deram prova de que Gachet tinha lá sua razão.



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